Estudo reduziu quantidade de insetos necessários no processo em até 500 vezes.
Uma técnica desenvolvida no Instituto de Química de São Carlos (IQSC/USP) diminuiu em até 500 vezes a quantidade de abelhas utilizadas na identificação de inseticidas nos tecidos desses insetos.
As pesquisadoras envolvidas no estudo trabalharam com abelhas, as africanizadas e Jataí, e dois agrotóxicos muito utilizados no Brasil: imidacloprida e tiametoxam.
Pelo método tradicional, são necessárias cerca de 150 abelhas africanas para que os agrotóxicos sejam identificados. Já no trabalho realizado no IQSC, é possível obter o resultado com apenas três insetos, 50 vezes menos.
Com as abelhas Jataí, a redução é ainda maior. Com apenas dez insetos as pesquisadoras conseguiram identificar os agroquímicos, enquanto no método padrão seria preciso de 5 mil abelhas, número 500 vezes maior.
“Se nós tirarmos uma quantidade menor desses insetos da natureza para fazer esse tipo de avaliação será uma grande vantagem. O avanço que conseguimos vai possibilitar a substituição das técnicas tradicionais por alternativas mais amigáveis ao meio ambiente, reduzindo a mortandade de abelhas para as análises”, explica a doutoranda do IQSC e autora do trabalho, Ana Maria Barbosa Medina.

Método
Para avaliar se há agrotóxicos no tecido das abelhas, as pesquisadoras trituram o insetos e misturam com um solvente e alguns sais. O processo faz com que os agrotóxicos saiam do tecido das abelhas e se juntem ao solvente.
A mistura passa então por uma centrifugação que separa tanto os sais quanto as abelhas e permite que a parte líquida composta pelo solvente e os agrotóxicos seja retirada e colocada em um equipamento que faz a separação dos produtos químicos e os envia para outro aparelho, responsável por detectar e quantificar os agrotóxicos.
As pesquisadoras realizaram inúmeros testes com diferentes medidas de insetos até alcançarem as mínimas possíveis que viabilizassem a detecção dos compostos tóxicos.
Para desenvolver e comprovar a eficácia do método, foram coletadas abelhas africanizadas de sítios e apiários do interior de São Paulo e abelhas Jataí, do Centro de Recursos Hídricos e Estudos Ambientais (CRHEA), da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, e de plantações de morango em Bom Repouso (MG).
“Nós identificamos os dois agrotóxicos estudados no tecido das abelhas africanizadas. Já nas abelhas Jataí, detectamos o imidacloprida, que originalmente não é utilizado no morango, mas sim em culturas de batata e milho próximas da região. Isso comprova que as abelhas não procuram alimento em uma única fonte, viajando para outras regiões, com diferentes plantações”, explica Ana.
Esse foi o primeiro estudo do mundo que identificou agrotóxicos em abelhas Jataí.

Mortandade de abelhas
Mesmo em baixas concentrações, os agrotóxicos imidacloprida e tiametoxam podem afetar o comportamento das abelhas e reduzir seu tempo de vida.
O uso desses defensivos químicos são proibidos na União Europeia, mas tem autorização no Brasil, onde são utilizados no cultivo de cana-de-açúcar, arroz, cereais, milho, girassol, batata, frutas e algodão.
O Brasil tem dezenas de registros todos os anos de episódios de mortandade de abelhas e também de abandono de colmeias como consequência do uso extensivo de agrotóxicos, que contribui para a diminuição da população desses polinizadores.
Além de ajudar a identificar se esses agrotóxicos estão diretamente ligados a um caso de mortandade, o estudo pode contribuir para que os produtores de mel identifiquem previamente se as abelhas estão expostas ou sendo intoxicadas por esses produtos e consigam prevenir a perda da colmeia, transferindo-a de lugar.













